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Como a alta dos juros e o dólar impactam o apetite dos investidores em M&A no Brasil

  • Foto do escritor: Deallink
    Deallink
  • há 25 minutos
  • 5 min de leitura

A combinação de juros em patamar historicamente elevado e dólar caro criou um novo regime para o apetite dos investidores em operações de fusões e aquisições no Brasil. Desde 2022, a taxa Selic saiu de níveis próximos de 2% ao ano no período pós-pandemia para picos de 13,75% entre agosto de 2022 e agosto de 2023, segundo dados do Banco Central e do Tesouro Nacional. Em 2025, o ciclo voltou a endurecer: em junho, o Copom elevou a Selic para 15% ao ano, o maior nível desde 2006, com sinalização de manutenção prolongada para conter expectativas inflacionárias. Ao mesmo tempo, o real sofreu forte volatilidade, chegando a romper a marca de 6 reais por dólar em 2024, em meio a preocupações fiscais e intervenções cambiais do Banco Central, antes de recuar para a faixa de 5,3–5,8 em meados de 2025. Esse pano de fundo altera profundamente o cálculo de risco, retorno e timing de investidores estratégicos e financeiros interessados em M&A no país.


Como a alta dos juros e o dólar impactam o apetite dos investidores em M&A no Brasil

Como os juros altos redesenham o custo de capital e o valuation


Em ambiente de juros baixos, o custo de capital cai, as taxas de desconto dos fluxos de caixa futuros são menores e os múltiplos de valuation tendem a se expandir, estimulando um ciclo mais agressivo de aquisições. O cenário atual é o oposto. Com a Selic em dois dígitos elevados, o custo médio ponderado de capital das empresas brasileiras sobe significativamente, pressionando a avaliação de ativos e tornando mais rígida a disciplina de retorno exigida em cada transação. Estudos internacionais mostram que apertos de política monetária reduzem o apetite por M&A e estão associados a reações de mercado mais negativas a anúncios de transações, pela percepção de que o capital ficou mais caro e o espaço para sinergias destruidoras de valor aumentou. No Brasil, esse efeito se materializa na prática em rodadas de negociação mais longas, com compradores revisando modelos financeiros, aumentando o peso de cenários de estresse e exigindo margens de segurança maiores sobre projeções de crescimento e de geração de caixa.


O papel do dólar caro na decisão de investir


A dinâmica cambial adiciona outra camada de complexidade ao apetite de investidores em M&A. Para empresas brasileiras que captam em dólar ou possuem passivos relevantes na moeda, a depreciação do real aumenta o serviço da dívida e reduz a folga financeira para novas aquisições. Isso limita a capacidade de pagamento de prêmios em transações relevantes, sobretudo em setores intensivos em capex ou dependentes de insumos importados. Já para investidores estrangeiros, o dólar valorizado pode ter efeito ambivalente. Por um lado, barateia ativos brasileiros quando vistos em moeda forte: empresas listadas e privadas passam a valer menos em dólares, abrindo janelas para teses de “compra na baixa” em setores com fundamentos sólidos. Por outro lado, um câmbio volátil e com tendência de depreciação aumenta o risco de conversão de resultados, comprimindo a taxa interna de retorno medida em dólar e exigindo prêmios de risco mais elevados.


Mudanças no mix de investidores e na natureza dos deals


Apesar do ambiente desafiador, o mercado brasileiro de M&A não parou; ele mudou de composição. Dados de 2024 indicam que, embora o número total de transações tenha caído, o valor agregado subiu, sinalizando uma concentração em operações maiores e de caráter mais estratégico. Relatórios recentes apontam ainda que parte relevante do volume de M&A na América Latina tem sido puxada por fundos de private equity e investidores institucionais, com foco em tecnologia, energia limpa e infraestrutura, setores com teses de longo prazo mais resilientes à volatilidade macro. Em paralelo, análises sobre o mercado brasileiro sugerem que investidores internacionais tornam-se relativamente mais ativos em determinados segmentos, enquanto players domésticos mostram maior cautela, especialmente em setores cíclicos ou altamente expostos a custos financeiros.


Setores favorecidos e oportunidades em ativos estressados


O ambiente de juros altos e dólar caro também abre espaço para duas frentes de oportunidade. A primeira são setores com receitas previsíveis, contratos de longo prazo ou forte capacidade de repasse de preços, como concessões de infraestrutura, saneamento, energia renovável e determinados nichos de tecnologia B2B. Esses segmentos continuam atraindo capital, pois oferecem fluxos de caixa mais estáveis, o que ajuda a mitigar o impacto de taxas de desconto elevadas. A segunda frente é o universo de ativos estressados. Empresas muito alavancadas, com passivos em dólar ou dificuldades de refinanciamento em um sistema bancário mais seletivo, tornam-se alvos potenciais para investidores oportunísticos, fundos de crédito e consolidadoras setoriais. Nesses casos, o apetite por M&A não desaparece, mas muda de perfil: saem as transações de crescimento financiadas por capital barato e entram operações de reestruturação, aquisição de ativos em dificuldades e consolidação defensiva.


Governança, risco político e horizonte de longo prazo


Outro elemento central para o apetite dos investidores em M&A no Brasil, em um contexto de juros e dólar elevados, é a percepção de risco político e fiscal. Análises recentes sobre o mercado local destacam que a confiança em uma trajetória fiscal crível é decisiva para reduzir o prêmio de risco exigido pelos investidores e, consequentemente, o custo de capital das empresas. Quando há dúvidas sobre a sustentabilidade da dívida pública, aumentam as pressões sobre a curva de juros de longo prazo e sobre o câmbio, o que torna mais difícil fechar o gap de valuation entre compradores e vendedores. Em resposta, investidores institucionais, fundos globais e corporações multinacionais tendem a ser mais seletivos, priorizando alvos com alta qualidade de governança, compliance robusto, transparência de balanços e modelos de negócio que resistam a cenários adversos.


Redesenho das estruturas de deal


Nesse ambiente, a estruturação das transações passa a refletir mais fortemente a necessidade de repartição de riscos entre as partes. Earn-outs baseados em metas de Ebitda, cláusulas de ajuste de preço pós-fechamento e mecanismos de proteção cambial tornam-se mais frequentes, assim como a combinação de instrumentos de dívida e equity para equilibrar alavancagem e retorno. Compradores buscam alongar prazos de fechamento para incorporar eventuais mudanças de cenário, enquanto vendedores tentam preservar valor negociando faixas de preço e condições de saída futura. O resultado é um processo de M&A mais complexo e técnico, em que aspectos financeiros, regulatórios e de governança pesam tanto quanto a lógica estratégica da combinação de negócios.

A alta dos juros e do dólar no Brasil não elimina o apetite dos investidores por M&A, mas o transforma profundamente. O capital passa a ser mais criterioso, exigindo retornos mais altos, estruturas de financiamento mais robustas e governança acima da média. Em vez de um ciclo impulsionado apenas por liquidez abundante e crédito barato, o país entra em uma fase em que cada operação precisa justificar, com clareza, por que faz sentido em um ambiente de custo de capital elevado, volatilidade cambial e incertezas fiscais.

 
 

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