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Erros comuns de valuation em M&A e como reduzir distorções na negociação

  • Foto do escritor: Deallink
    Deallink
  • há 4 horas
  • 5 min de leitura

A negociação de operações de compra e venda de participações societárias vem sendo cada vez mais pressionada por fatores que distorcem a lógica econômica clássica da avaliação de empresas. Volatilidade macroeconômica, mudanças regulatórias frequentes, assimetria informacional e expectativas excessivamente ancoradas em narrativas de crescimento criam um ambiente propício a erros relevantes de valuation. Esses erros não apenas afetam o preço final da transação, mas também comprometem a alocação de riscos, a estrutura contratual e a viabilidade de geração de valor no pós fechamento. Entender onde ocorrem as falhas mais recorrentes e como mitigá-las é essencial para negociações mais racionais e tecnicamente sustentáveis.

 

Erros comuns de valuation em M&A e como reduzir distorções na negociação

Projeções financeiras excessivamente otimistas

 

Um dos desvios mais recorrentes está na construção de projeções financeiras baseadas mais em expectativas estratégicas do que em evidências operacionais. Crescimentos agressivos de receita, ganhos de margem pouco testados e expansão acelerada de market share são frequentemente incorporados aos modelos sem a devida validação histórica ou setorial. Esse otimismo costuma ser reforçado por pressões internas, sobretudo quando a transação é vista como um movimento transformacional, levando à superestimação do valor econômico do ativo. Para reduzir esse tipo de distorção, é fundamental submeter as premissas de crescimento a testes de estresse e análises de sensibilidade mais rigorosas. A comparação com benchmarks do setor, a avaliação da capacidade real de execução e a separação entre planos estratégicos e cenários base ajudam a reancorar o valuation em parâmetros mais defensáveis. Além disso, a construção de cenários alternativos com probabilidades explícitas contribui para uma visão mais equilibrada do valor esperado.

 

Subavaliação de riscos operacionais e regulatórios

 

Outro erro frequente é a incorreta mensuração de riscos que afetam diretamente a geração de caixa futura. Riscos operacionais, como dependência excessiva de poucos clientes, fragilidade da cadeia de suprimentos ou concentração de know how em pessoas chave, muitas vezes são tratados de forma superficial. Da mesma forma, riscos regulatórios e jurídicos acabam sendo diluídos em taxas de desconto genéricas, sem uma análise específica de impacto e probabilidade. A redução dessas distorções passa por uma integração mais profunda entre valuation e processos de due diligence. Riscos identificados devem ser refletidos de forma explícita no modelo, seja por ajustes nas projeções, seja por mecanismos contratuais de proteção, como cláusulas de indenização ou ajustes de preço. A simples elevação da taxa de desconto, sem compreensão granular do risco, tende a mascarar problemas em vez de resolvê-los.

 

Uso inadequado da taxa de desconto

 

A taxa de desconto é um dos componentes mais sensíveis de qualquer valuation e, paradoxalmente, um dos mais mal utilizados. Em muitos casos, observa-se a aplicação de taxas padronizadas, desconectadas do perfil específico do ativo avaliado. Alterações no ambiente macroeconômico, no custo de capital setorial ou na estrutura de capital projetada nem sempre são refletidas de forma adequada, resultando em valores artificialmente inflados ou deprimidos. Uma abordagem mais técnica exige a decomposição cuidadosa dos elementos que compõem o custo de capital. Risco país, estrutura de financiamento, volatilidade do fluxo de caixa e estágio de maturidade do negócio devem ser considerados de forma consistente. A revisão periódica dessas premissas ao longo do processo de negociação também é crucial, sobretudo em contextos de rápida mudança econômica.

 

Confusão entre valor estratégico e valor financeiro

 

É comum que compradores atribuam ao ativo um valor que incorpora sinergias específicas, economias de escala ou vantagens competitivas exclusivas de sua própria estrutura. O erro ocorre quando esse valor estratégico é tratado como se fosse intrínseco ao ativo, elevando o preço base da negociação. Essa confusão gera desalinhamento de expectativas e, muitas vezes, impasses difíceis de resolver. A mitigação desse problema passa pela clara separação entre valor standalone e valor com sinergias. O valuation deve partir da capacidade do ativo de gerar caixa de forma independente, enquanto os ganhos estratégicos devem ser tratados como upside, passíveis de compartilhamento por meio de estruturas condicionais. Earn outs e mecanismos de pagamento contingente são instrumentos eficazes para alinhar interesses e reduzir o risco de pagar antecipadamente por benefícios incertos.

 

Dependência excessiva de múltiplos de mercado

 

Embora múltiplos comparáveis sejam ferramentas úteis, seu uso acrítico é uma fonte relevante de distorção. Empresas com modelos de negócio, estágios de crescimento e perfis de risco distintos acabam sendo comparadas de forma simplificada, desconsiderando diferenças estruturais importantes. Além disso, múltiplos de mercado refletem condições conjunturais que nem sempre são sustentáveis no médio e longo prazo. Uma utilização mais responsável dos múltiplos exige ajustes criteriosos e uma leitura crítica do contexto em que foram observados. Eles devem servir como instrumento de validação, e não como principal determinante de valor. A combinação com métodos baseados em fluxo de caixa descontado, ajustados às características específicas do ativo, tende a produzir resultados mais robustos.

 

Negligência na análise da qualidade dos resultados

 

Resultados contábeis podem esconder distorções relevantes quando não se avalia sua qualidade. Receitas não recorrentes, políticas agressivas de reconhecimento, capitalização indevida de custos e práticas contábeis oportunistas podem inflar artificialmente o desempenho histórico. Quando esses números são projetados sem ajustes, o valuation herda essas distorções. A análise aprofundada da qualidade dos lucros é um passo essencial para reduzir esse risco. Ajustes normalizadores, revisão de práticas contábeis e compreensão do capital de giro necessário para sustentar o crescimento são medidas que ajudam a revelar a verdadeira capacidade de geração de caixa do negócio. Ignorar essa etapa compromete a credibilidade de todo o modelo.

 

Estruturas de pagamento desalinhadas com o valuation

 

Mesmo quando o valuation é tecnicamente bem construído, erros surgem na forma como o preço é traduzido em estrutura de pagamento. Pagamentos excessivamente concentrados no fechamento, sem proteção contra riscos futuros, aumentam a exposição do comprador a premissas não confirmadas. Por outro lado, estruturas excessivamente condicionais podem inviabilizar a transação. A redução dessas distorções depende de um desenho contratual coerente com as incertezas identificadas no valuation. Ajustes de capital de giro, cláusulas de ajuste de preço e mecanismos de retenção de parte do pagamento ajudam a transformar o valuation em um instrumento dinâmico, capaz de absorver diferenças entre expectativas e realidade.

 

Erros de valuation em negociações societárias raramente decorrem de falhas isoladas de cálculo. Eles são, na maioria das vezes, resultado de premissas mal fundamentadas, uso inadequado de ferramentas e incapacidade de traduzir riscos e incertezas de forma estruturada. Em um ambiente cada vez mais complexo e volátil, a disciplina técnica torna-se um diferencial decisivo. Reduzir distorções na negociação exige uma abordagem integrada, que combine rigor analítico, senso crítico e mecanismos contratuais adequados. O valuation deixa de ser apenas um número e passa a ser um processo contínuo de teste de hipóteses e alinhamento de expectativas. Quando tratado dessa forma, ele contribui não apenas para um preço mais justo, mas para transações mais sustentáveis ao longo do tempo.

 
 

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