Setores brasileiros que estão atraindo compradores estratégicos
- Deallink

- há 1 dia
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O mercado brasileiro de transações corporativas entrou em uma fase marcada menos pela quantidade de negócios e mais pela qualidade dos ativos disputados. Em 2026, compradores estratégicos vêm demonstrando maior seletividade, concentrando capital em empresas capazes de oferecer escala, acesso a mercados, tecnologia, ativos estratégicos ou vantagens competitivas difíceis de construir organicamente. Dados da KPMG mostram que, no primeiro semestre de 2026, as transações realizadas por investidores estratégicos movimentaram R$ 159 bilhões, crescimento de 20,6% em relação ao mesmo período de 2025, mesmo com queda de 31% no número de operações.
Essa combinação é relevante porque revela uma mudança no perfil da competição. Em vez de buscar simplesmente aumentar o número de ativos adquiridos, compradores estão concentrando recursos em operações maiores e mais transformacionais. Mineração, energia, infraestrutura, tecnologia, serviços financeiros e segmentos ligados ao agronegócio aparecem entre as áreas que despertam atenção, mas cada uma delas apresenta uma tese de investimento diferente.

Mineração e minerais críticos ganham dimensão geopolítica
A mineração brasileira está entre os segmentos que mais ganharam relevância para compradores estratégicos em 2026. No primeiro semestre, o setor registrou crescimento de 55% no número de operações, movimentando aproximadamente R$ 47,9 bilhões. O componente internacional é particularmente expressivo: no segundo trimestre, operações cross-border responderam por 99% do valor divulgado em negócios de mineração.
O interesse não se limita ao volume de minério produzido. Minerais críticos e terras raras passaram a ser avaliados também sob a perspectiva de segurança de cadeias globais, transição energética, eletrificação e tecnologia avançada. A aquisição da operação da Serra Verde em Goiás pela norte-americana USA Rare Earth, por US$ 2,8 bilhões, ilustra como ativos brasileiros podem entrar em estratégias industriais e geopolíticas internacionais. O desafio para o Brasil está em capturar maior valor nas etapas seguintes da cadeia, já que o refino e a fabricação de produtos de maior complexidade continuam concentrados no exterior.
Esse cenário tende a aumentar a importância de empresas que dominem tecnologias de processamento, tenham reservas comprovadas, licenciamento avançado, infraestrutura logística ou capacidade de agregar valor aos minerais. Para compradores estratégicos, portanto, a avaliação deixa de considerar apenas reservas e produção e passa a incorporar segurança de fornecimento, localização, tecnologia, licenciamento e possibilidade de integração industrial.
Energia deixa de ser apenas infraestrutura e passa a ser plataforma de crescimento
O setor energético também está atraindo capital estratégico em razão de uma transformação estrutural na demanda. No segundo trimestre de 2026, o valor das operações de energia passou de R$ 2,7 bilhões no primeiro trimestre para R$ 18,2 bilhões, impulsionado por grandes transações em bioenergia e transmissão.
A mudança mais interessante, entretanto, está na relação entre energia e tecnologia. A expansão de inteligência artificial e de data centers aumenta a necessidade de eletricidade, água e infraestrutura, criando uma conexão cada vez mais direta entre energia, computação e infraestrutura digital. A própria PwC aponta que essa combinação está reorganizando prioridades de investimento no setor energético em 2026.
Isso cria espaço para compradores estratégicos interessados não apenas em geradoras ou transmissoras, mas também em empresas que atuam em armazenamento, gestão energética, eficiência, bioenergia, infraestrutura para data centers e soluções capazes de melhorar a previsibilidade do consumo.
No Brasil, a disponibilidade de fontes renováveis também acrescenta uma dimensão competitiva. O conceito de powershoring, baseado na instalação ou transferência de atividades industriais intensivas em energia para regiões com oferta abundante de eletricidade limpa, pode aumentar a relevância de ativos brasileiros para grupos internacionais.
Infraestrutura ganha força pela previsibilidade de receitas
Infraestrutura permanece no radar de compradores estratégicos porque oferece uma característica particularmente valorizada em ambientes de maior incerteza: previsibilidade. Concessões, transmissão, rodovias, portos e determinados ativos digitais podem apresentar contratos de longo prazo e receitas com mecanismos de correção que ajudam a reduzir a volatilidade do fluxo de caixa.
Em 2026, a própria definição prática de infraestrutura vem se ampliando. Data centers, por exemplo, passaram a ocupar espaço crescente dentro dessa tese, justamente porque a infraestrutura digital se tornou essencial para inteligência artificial, computação em nuvem e processamento de dados.
Esse movimento favorece empresas que já possuem ativos operacionais, contratos robustos, localização estratégica ou capacidade de expansão. Também aumenta o interesse por operações envolvendo ativos maduros e por carve-outs, especialmente quando grandes grupos procuram liberar capital de negócios considerados não essenciais para direcioná-lo a áreas prioritárias. A KPMG aponta justamente a possibilidade de intensificação de vendas de ativos non-core ao longo de 2026.
Tecnologia avança de volume para ativos de maior valor
Tecnologia continua sendo um dos principais polos de atração de compradores, mas o mercado está mais exigente. Em 2025, o segmento respondeu por cerca de 40% das transações, segundo a KPMG, enquanto operações envolvendo inteligência artificial, automação e transformação digital começaram a ganhar maior peso financeiro.
Em 2026, a questão central deixou de ser simplesmente possuir uma empresa de tecnologia. Compradores estratégicos estão procurando ativos capazes de resolver problemas específicos e de serem incorporados rapidamente às estruturas existentes. Software vertical, inteligência artificial aplicada, cibersegurança, automação, dados proprietários e plataformas com integração a processos críticos ganham relevância justamente porque podem ampliar capacidades já existentes.
O valor estratégico de uma empresa tecnológica também pode estar em elementos menos evidentes. Uma base de clientes altamente segmentada, dados proprietários, integração profunda com determinados setores, propriedade intelectual, recorrência de receita e capacidade de implantação podem ser mais importantes do que crescimento acelerado de faturamento.
Isso ajuda a explicar por que o número de transações pode cair enquanto o valor negociado aumenta. No primeiro trimestre de 2026, por exemplo, o número de operações de tecnologia, mídia e telecomunicações caiu 26%, mas o valor avançou 400%, segundo a KPMG.
Serviços financeiros entram em uma nova etapa de consolidação
O setor financeiro continua atraente, especialmente em segmentos nos quais tecnologia e serviços tradicionais estão convergindo. Em 2025, os serviços financeiros apresentaram crescimento de 52% nas transações, totalizando 209 operações, impulsionadas principalmente por fintechs.
A tendência em 2026 é de maior atenção à capacidade de monetização e à qualidade da operação. Fintechs que possuem distribuição eficiente, infraestrutura tecnológica escalável, carteira de clientes relevante ou produtos complementares podem se tornar peças estratégicas para instituições maiores.
Ao mesmo tempo, a competição não ocorre apenas entre bancos. Empresas de tecnologia, plataformas de comércio, seguradoras, empresas de pagamentos e outros grupos financeiros podem disputar ativos que permitam ampliar sua presença em serviços adjacentes. Isso aumenta a importância de sinergias tecnológicas, dados, distribuição e relacionamento com clientes na formação do valor da operação.
Agronegócio: compradores procuram a cadeia, não apenas a produção
O agronegócio continua sendo uma das áreas estruturais da economia brasileira e apresenta oportunidades que vão muito além da aquisição de propriedades ou empresas produtoras. A expansão da produtividade no interior do país vem movimentando também transporte, comércio, construção e serviços, especialmente em regiões do Centro-Oeste e do Matopiba.
Para compradores estratégicos, isso amplia o universo de ativos relevantes. Armazenagem, logística, processamento, insumos, tecnologia agrícola, bioenergia, gestão de dados e distribuição podem apresentar oportunidades de integração muito interessantes.
A lógica da cadeia também favorece operações que conectam diferentes etapas do processo. Uma empresa de alimentos pode buscar maior controle sobre fornecedores; uma companhia de insumos pode avançar em distribuição; uma plataforma tecnológica pode adquirir uma solução especializada para ampliar sua presença no campo.
Outro fator importante é a profissionalização de empresas de médio porte. Negócios familiares com governança mais estruturada, informações financeiras confiáveis, processos definidos e capacidade de expansão regional podem se tornar candidatos mais naturais a movimentos de consolidação.
Saúde e life sciences atraem compradores em busca de escala
Saúde permanece entre os segmentos que podem sustentar atividade estratégica, principalmente em negócios nos quais existe possibilidade de expansão geográfica, integração de serviços e ganho de escala. A KPMG destaca saúde e life sciences entre as áreas que podem ganhar espaço nas aquisições relacionadas à tecnologia e à inteligência artificial.
A digitalização do setor acrescenta uma camada importante à análise. Plataformas de gestão, diagnóstico, dados clínicos, automação administrativa e soluções de inteligência artificial podem interessar tanto a empresas tradicionais quanto a grupos tecnológicos interessados em entrar ou ampliar presença na área.
Clínicas e redes especializadas também podem apresentar atratividade quando existe forte densidade regional, marca reconhecida ou capacidade de integração. Nesse contexto, compradores estratégicos tendem a avaliar não somente faturamento e margem, mas também localização, base de pacientes, capacidade operacional, contratos, tecnologia e possibilidades concretas de expansão.
O novo mapa de oportunidades é mais seletivo
A principal característica do mercado brasileiro atual não é simplesmente a existência de setores aquecidos. É a concentração do capital em ativos considerados estratégicos. Os dados do primeiro semestre de 2026 mostram exatamente essa dinâmica: menos operações estratégicas, mas maior volume financeiro.
Essa seletividade aumenta a distância entre empresas que estão apenas disponíveis para uma negociação e aquelas que conseguem despertar competição entre compradores. Empresas com ativos escassos, tecnologia proprietária, contratos de longo prazo, posição relevante em uma cadeia de valor ou capacidade comprovada de crescimento tendem a apresentar uma tese mais clara.
Também existe uma dimensão regional que merece atenção. O crescimento do agronegócio e da infraestrutura logística vem deslocando parte relevante da atividade econômica para regiões fora dos tradicionais centros empresariais. Isso pode colocar empresas localizadas no interior do país no radar de compradores que antes concentravam suas análises em São Paulo, Rio de Janeiro e outras capitais.
O que compradores estratégicos devem observar daqui para frente
A tendência para o restante de 2026 aponta para um mercado em que qualidade, escala e posicionamento estratégico devem continuar pesando mais do que quantidade. Mineração e infraestrutura permanecem especialmente relevantes para investidores internacionais, enquanto energia, tecnologia, inteligência artificial, saúde e serviços financeiros apresentam diferentes oportunidades de consolidação e integração.
Nesse ambiente, a preparação dos ativos ganha importância. Empresas que desejam aproveitar uma eventual janela de negociação precisam compreender como compradores estratégicos enxergam seu negócio, quais elementos são realmente diferenciadores e quais riscos podem reduzir sua atratividade.
Mais do que pertencer a um setor considerado promissor, o ativo precisa apresentar uma tese de crescimento que faça sentido para o comprador. A pergunta central passa a ser menos sobre estar em um mercado aquecido e mais sobre qual posição a empresa ocupa dentro desse mercado.
Em síntese, os setores brasileiros que mais atraem compradores estratégicos em 2026 têm algo em comum: estão conectados a mudanças estruturais da economia. Energia está ligada à eletrificação e aos data centers; mineração, à segurança das cadeias globais; tecnologia, à inteligência artificial; infraestrutura, à necessidade de ativos de longo prazo; agronegócio, à produtividade e à integração da cadeia; e saúde, à escala e à digitalização.
Essa convergência indica que o próximo ciclo de transações tende a privilegiar empresas que não apenas apresentam bons resultados, mas que também possuem ativos, capacidades ou posições de mercado difíceis de replicar. É justamente nessa interseção entre desempenho operacional e relevância estratégica que compradores devem concentrar cada vez mais sua atenção.










